Museu

24/04/2012

E se agora eu estivesse no mar?  Flutuando entre ondas leves – Iemanjá me recebe bem – sentindo o sol queimar de leve minha pele clara e manchada de sardas. E se agora eu estivesse no mar? Cortando ondas espumadas feito sereia, que desmancham em volta de mim como que com portas me recebessem para dentro de si, voando por dentro delas até o cume da montanha de água, transparente, tão perfeita, viro pintura dentro da onda. Ninguém vê, ninguém liga… Se agora eu estivesse no mar, com os lábios rasgados de sol e de sal,  a pele temperada, no cabelo centenas de pedras desunidas, no meu cabelo abrigo montanhas milenares, tudo pro meu museu, tudo pra mim. Se agora eu estivesse no mar não precisaria escrever “e se agora eu estivesse no mar”.

Navegante

28/03/2012

Navega alma
Serpenteia pelo mar
Busca teu porto
Busca teu lugar

Caminho tortuoso
Descanso não há
Portos encontrou
Mas não eram seu lar

Morre alma
Morre a navegar
Afoga almazinha
De cansaço e sem lugar.

Era tímido, sonhador. Oprimido por uma vida de decisões não tomadas foi sendo levado por uma maré invisível, porém poderosa.
Punha suas poesias por entre as noticias, e saía à rua como respeitador conhecedor do mundo real.
O sonhador achava-se perdido no turbilhão de realidade que era obrigado a viver, o mundo real o deprimia e entediava.
Preferia Quixote a generais, Alice a qualquer rainha – a de Copas passava.
Mas foi ensinado no real e por medo de se perder guardava sua paixão em segrego, que ninguém soubesse de suas viagens de papel. Jamais assumiria seu amor pelo não real.
Sonha amarrando-se ao chão tal era seu medo de voar.

Medo do Escuro

28/01/2012

Sozinha lá fora a luz ameaçou apagar
Apavorada do escuro quis entrar
Mas dessa vez não
Fechei os olhos pro escuro dominar
A chuva apertou
O universo sempre tenta me desafiar
Os abri imediatamente
Sou covarde, não entro em briga com deus
-Finjo que não existe exatamente pra não desafiar-
Mas dessa vez não
Fechei de novo
E fumei meu cigarro no escuro da pálpebra
Até meu lábio queimar
A chuva apertou, gritou alto na telha
- TA PERIGOSO, VOU TE PEGAR!
Mas o meu escuro eu dominei
E de olhos fechados fumei
Até meu lábio queimar
O cigarro acabou
Então a pálpebra da minha luz acendi
E nada havia mudado
A chuva era a mesma
Forte, poderosa, ameaçadora
Mas não pegou ninguém
Muito menos a mim
Dessa vez, eu venci

Constelações

23/01/2012

Daqui de onde eu fico pra fumar
da pra ver uma estrela
Uma só
Só uma estrela eu posso olhar

A cicatriz inchada no meu braço
não me deixa nem rimar
E mesmo assim Deus me deu essa estrala preu olhar.

Daí eu fico a me perguntar:
Será um sinal de que Ele quer me perdoar?
Ou foi só mais uma que esqueceu de apagar?

.

.

.

.

Enquanto escrevia esse poema a estrela se pôs ainda mais alto… Não sei se por deboche ou por carinho, de qualquer forma, a estrela era pra mim.
Curiosamente apareceram outras, tímidas, distantes, mas definitivamente estrelas. Ganhei uma constelação no dia que escrevi esse poema.

O Dono do Mundo

13/01/2012

Pra chamar o mundo de meu
Eu o abandonei por três vezes
Uma forçada, uma por acaso
E a última intencional.

Três mortes eu tive – numa vida só
É sorte ou azar?
Ninguém sabe responder
E nem falar também
Olhares tristes
Pena, incompreensão…
Mas resposta, ninguém tem!

Nem eu mesmo
Não sei dizer o porquê
Mas garanto, meninas
Quando se despede
E te trazem de volta por tantas vezes
É porque te querem
E querem muito
Então ficarei
Mas sou guloso, e quero tudo pra mim
O mundo agora é meu

O prelúdio do fim

12/01/2012

Do coma que é meu
a dor precisa ser sua
pois foi por você
que dançava samba e valsa
que eu tocava o violão
A tristeza que vem

Não sei nem chorar
deitei pra dormir para sempre
num coma
pra te machucar
Machucou?
Se não doeu, me deixem aqui
em meus sonhos você sofre por mim
e me ama, e toca o violão na minha cintura
a gente dança, e samba
tu me chama nos braços e giramos

Nos sonhos…

Se não sofrer, me deixem dormindo
prefiro dormir com a nossa fantasia
do que viver nesse jardim sem luar
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém.

O povo de ouro

08/01/2012

Há os bichos de carne e os de ouro. Não sei mais se aguento as magoas que as pessoas do ouro, essas deusas e deuses, bichos perfeitos, tão limpos, tanto insistem em me provocar. Minha lama na cara incomoda só porque você esconde a sua? Ou sua lama acabou? Fui eu que roubei tudo pra mim. Sou baixa, sou pobre, sou suja e roubo a lama dos outros pra escancarar ainda mais as fraquezas da minha carne suja. Que já fede sozinha, não precisa de mais, mas eu quero mesmo assim, pra afrontar, pra mostrar que não tenho medo de ser REAL. É que pro povo do ouro o que posso fazer é afrontar, sendo suja, mendiga de amor. A poesia que vocês não tem eu não guardo só pra mim, os de carne e lama roubada estão por ai, aparecemos e nos reconhecemos no “bom dia”. Pois então que sejam MENTIROSOS VOCÊS, que pisem na carne fresca só porque podem, não faz diferença, não é mesmo? Enganar a si, ao outro… Eu prefiro ser suja, cuspida, fedida, mas não desminto mais suas mentiras, engulo com lama e ainda assim continuo sendo mais real que vocês.

Pelas cores

30/12/2011

Invejo a arte que tira das cores. Do preto e branco tão ultrapassado me sinto careta com declarações sem sentido, declaração de algo que provavelmente só exista para mim. Mas mesmo assim, atrasada e sem cores, tento dizer que não fugi de você, fujo de mim mesma sempre que posso, e mais uma vez, naquela manhã, porque você não me impediu, eu pude – infelizmente. Qualquer palavra e eu teria me aberto com diamantes caleidoscópicos, mas você não me impediu. Invejo suas cores maravilhosas, e do poço profundo que são as palavras negras que me envolvem eu busco um arco-íris tipo você pra provar certas coisas pra mim mesma e pro universo. Se puder me ajudar…

Tinha suspirado…

13/11/2011

O frio não ajuda
O Aconchego da cama não ajuda
A cidade cinza me acordou pro que eu perdi…
(Você)
Gritou no meu ouvido o que não vai ser….
(Meu)
E mais uma vez eu levo de volta o coração pra caixa de música
Espero que ainda sirva se um dia precisar
Desperdício um órgão tão bonito sangrar sozinho
Sem cantar “amor, i Love you”
Sem nem ser seu.

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